“Você se irrita com a burrice alheia?”.
Tudo partiu desta pergunta, que fiz a um amigo. Não sei de onde surgiu a pergunta, nem se foi feita exatamente desta maneira. Lembro apenas que a resposta foi bem relativizada, mas convincente. Ele disse que se a pessoa se esforça, tenta compreender algo, enfim, ele não se irrita. Mas se a pessoa é cabeça dura, aí sim é complicado. E por falar em complicado, vale ressalvar que nos dias de hoje virou vício as pessoas utilizarem esta palavra quando não sabem o que dizer. Mas faz sentido. Aliás, a simplicidade é um estado que pertence apenas às crianças (pequenas e bem criadas, hoje nem isso podemos generalizar) e aos sábios (espécie rara). No começo e no fim do novelo, o fio é solto e linear. No meio é uma “complicação” só.
Bom... feita a ressalva, é importante dizer que concordei com a resposta dele. Agi como se pensasse igual. Na verdade penso igual. O difícil é sentir igual. Se bem que, em relação a burrice alheia, eu já tinha melhorado bastante (até em sentimento). De uns tempos pra cá tenho me gabado por ter evoluído em relação a compreensão do outro, o livramento de preconceitos, a flexibilidade diante do diferente, e diante do absurdo, principalmente. E quando falo que me gabo não é exagero, muitas vezes chego até a ser soberba. Mas... como sempre disse minha amada vózinha: “a gente paga a língua”.
Pois é, esta semana perdi a linha com uma destas pessoas insuportavelmente burras. Um tal cidadão que eu não agüento mais nem ouvir a voz e que trabalha comigo. Ele é gente boa e tudo, é gentil, educado. O problema é que é beeeeeeeem burro.
Deus que me perdoe!
Eu não sou a inteligência em pessoa, ao contrário, às vezes até descambo com meus extremismos. Mas tem gente que abusa. Não estou nem falando dos acometidos por crises de burrice súbita, como Aldo Rebelo e os 13 congressistas que aprovaram o novo código florestal e de repente palavras como biodiversidade, manancial, vida futura, não significavam mais nada pra eles. Também não estou falando de pessoas como a Marina Silva que, embora historiadora, fica parecendo uma louca quando discursa como se fosse uma porta voz de um Deus antigo, que para se comunicar com os fiéis utiliza a figura dela, e com isto declara-se publicamente contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo, usando argumentos baseados nessa mitologia... Eu até admito este tipo de burrice... desde que fique longe de mim...
O problema é quando o portador de burrice crônica senta do lado da minha mesa de trabalho. Antes eu achava que burrice contaminava. Hoje não. Agora acho que a burrice é uma doença progressiva, incurável e fatal. Como a dependência química, sabe... Ah, e é cega também! Porque a inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem esta peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela falta dela. Aquele que nunca entendeu grande coisa se acha perfeitamente normal quando entende menos ainda... quando eu tiver inteligência suficiente vou desenvolver uma teoria sobre isto.
Mas voltando ao cidadão obstruído pela inépcia absoluta... O pior é que ele enche o peito e me fala: “temos que ser práticos”! Ele fala cheio de razão, é incrível! Fala como se a inteligência prática subsistisse incólume ao emburrecimento geral, como se inteligência fosse um adorno a ser acrescentado ao sucesso depois de resolvidos todos os problemas. De fato, a prova mais evidente da burrice torpe é o sujeito nem se dar conta dela.
O tal cidadão me irrita não só porque empaca meus afazeres de trabalho, mas porque rouba meu precioso tempo na insistência de trocar comigo conversas que não evolui filosoficamente, baseadas em um roteiro maniqueísta e machista (acho que ele cresceu com um bando de mulheres idiotizadas). E pra fechar com chave de ouro, ele se faz de bonzinho e sensatinho, como muitos com pinta de herói que luta pelo bem-estar, pela liberdade das mocinhas aprisionadas… Aff, odeio estes machos que se engalfinham pra provocar gratidão, admiração e tesão nas fêmeas.
Concordo com Nietzsche que somos felizes apenas na ignorância. E tenho uma boa notícia aos que torcem pela minha felicidade: ano que vem vou tentar ser uma pessoa normal. Eu gostaria muito de ser feliz por pintar meu cabelo de loiro, colocar silicone e botox , fazer dieta, não ter celulite ou rugas, e malhar assistindo Sex and the city, reality shows, Ana Maria Braga, Pânico ou novela de TV... Pois é gente, mas ano que vem vou tentar chegar perto disto, é uma das minhas metas ser uma mulher elegante (preciso apenas aprender como que faz isto), uma cidadã comprometida com o bem geral da nação, uma pessoa que ganha dinheiro, etc, etc, etc...
... NÃO APLAUDAM AINDA....
Porque antes de tudo isto eu preciso de um doutor que ainda pratique a lobotomia... sofro demais por ser eu. Perdi o senso do que é ser mulher. Que roupa usar? Qual o tamanho (e o modelo) certo da bolsa que tenho que usar para ir à praia, e qual devo usar para ir ao MC’Donalds? Pois é, sou burra pra estas coisas, não sei nem ser mulher e fico criticando o idiota que senta do meu lado. Mas é que infelicidade pra mim não é não conseguir escolher qual bolsa usar, mas não ter condições de concluir as incoerências da vida…
Então vamos a uma conclusão coerente: agradeço aos ignorantes por me levarem a um estado de sucessivas perguntas; e aos inteligentes, por atiçarem em mim problemas em relação aos quais minha própria curiosidade vacila.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Mudei de assunto na vida, todos sabem. Infeliz ironia: terei que mudar de assunto na minha pesquisa de mestrado também...
Me preparo há uns quatro anos para entrar no mestrado, é um preparo que envolve mais meu amadurecimento pessoal do que técnico. A dificuldade técnica, em si, já não é problema, passei até na prova de inglês, que eu achava o mais difícil. A entrada na USP também já não é problema, tenho uma orientadora que foi com a minha cara, enfim, tudo parecia perfeito... Mas, como nada foi fácil pra mim, não seria diferente agora. Aconteceu que a abençoada orientadora que me acolheu (com carinho, inclusive), disse sem o menor senso de compaixão: “olha, entendo sua posição teórica, mas eu não conheço Carl Rogers, preciso que você se fundamente em Winnicott. Você precisa entender que não é você quem escolhe a pesquisa, ela é quem te escolhe!!!!!!!!!!!”.
O número de exclamações não traduz minha indignação. Pra quem lê isto pode parecer problema pequeno, mas não é. E isto tem a ver com o tal amadurecimento que eu busco alcançar para entrar no mestrado. Por algum momento eu pensei que eu poderia falar sobre a educação, sobre minha paixão por Carl Rogers, sobre a temática da autonomia e da autogestão que tanto me excita e estimula. Mas eu terei que abrir mão... e isto não é tarefa fácil, principalmente porque terei que me fundamentar em Winnicott. Sabe o que isto significa? P-S-I-C-A-N-Á-L-I-S-E.
E eu me desagrado inteiramente da psicanálise: meu santo não bate, não encaixa no meu corpo, não consigo nem abstrair. Eu poderia me fundamentar em qualquer outro teórico: Jung, Perls (Gestalt), Merleau-Ponty (Existencialismo), enfim, mas psicanálise é de matar.
Este episódio me fez inclusive lembrar que Freud não gostava de música. Pense: uma Arteterapeuta (que anseia pela educação democrática, de perspectiva humanista) defendendo as idéias de Freud, e ele nem de música gostava! Acho que se ele gostasse, iria preferir o caminho da música clássica, onde há pautas e regras escritas, e onde aquele que ‘desafina’ deve aprender a ‘tocar direito’, ele jamais iria se render aos encantos do Jazz, que como eu, prefere criar sempre um acompanhamento apropriado para a melodia tocada - pelo paciente ou pelo aluno, em vez de seguir o racionalismo cheio de formulações que Freud impõe com seu discurso.
Quem lê este desabafo dramático pode até pensar que o absurdo está mais em mim, do que na psicanálise. Eu até concordo, estou percebendo que em meio ao meu romantismo humanista, estou “hipostatizando” a psicanálise. Só pra constar, hipóstase é uma noção filosófica que significa originariamente “substância”, mas que com a evolução do pensamento humano ganhou a conotação de uma abstração considerada como real, uma ficção. Minha idéia da psicanálise é muito difusa, é uma hipóstase. Um conceito em torno do qual se tem respeito, mas que é e que permanece como uma relíquia incapaz de ser aplicado ou de adaptar-se à realidade.
Pois bem, em meio a esta turbulência toda, lembrei-me das palavras de um ser iluminado que conheci. Neste domingo ele me colocou deitada em seu abraço e disse: “FOCO NO RESULTADO E NÃO NO PROBLEMA”.
Aí peguei três horas da noite de ontem, coloquei debaixo do braço e fui ao encontro de Winnicott.
O primeiro ponto que gostaria de mencionar é que Winnicott coloca como central a noção do falso self. Antes de entender, meus questionamentos foram todos de extrema crítica: “se um indivíduo não é ele mesmo, quem será ele? Ele não sabe que ele não é ele mesmo, de que modo devemos tratá-lo, estudá-lo, entendê-lo? De que vale, afinal, uma filosofia, uma sociologia, e mesmo uma psicologia que estudam falsos seres humanos?”. Depois de me indignar, contar até cinqüenta, pedir a ajuda de Deus, eu parti para a compreensão: a maneira como ele expõe o tema dá a entender (o que eu concordo) que a maioria esmagadora das pessoas é capaz de uma crueldade insana sempre que se encontra em situações onde alguém mais ‘assume’ a responsabilidade pelas consequências. Winnicott vai contra a idéia de que a natureza humana é ruim, mas diz que o Ser Humano, em sua maioria, NÃO é um ser moralmente responsável (pensei nos nazistas feitos prisioneiros após o fim da guerra, que justificavam seu comportamento monstruoso alegando que estavam ‘apenas obedecendo ordens’), mas desenvolve um falso self quando se deixam levar por outras pessoas. Winnicott diz que o self é saudável e tende a evolução, se for desenvolvido em situações adequadas, e o papel do educador e do psicólogo é justamente facilitar esta condição.
Nisto achei um ponto de convergência entre Winnicott e Rogers. O primeiro, brigou ao longo da vida contra a submissão e Rogers a favor da autonomia. Dá na mesma? Talvez sim, mas ainda tenho uma cisma contra a psicanálise (talvez seja preconceito), preferia então Machado de Assis que escreveu vastamente sobre esse mesmo fenômeno (talvez eu o inclua nos meus próximos projetos rs).
Outro ponto de convergência entre Winnicott, Rogers e eu (santa pretensão) é a crença de que o ser humano vem ao mundo e começa a inventar. Ele nasce assim: recria esse mundo que nós todos conhecemos. Só muito tempo depois (‘muito’ na perspectiva do bebê, claro) ele começa a aprender. Quando isso acontece desse modo, teremos um adulto saudável, generoso, forte, capaz de compaixão e respeito pelo outro. Quando os que cuidam dele acham que deveria ser ao contrário, primeiro ele tem que aprender, e depois poderá inventar o quiser, ele perde a capacidade de inventar, porque se torna um escravo. Sei que é utopia, mas eu queria enquanto educadora libertar escravos. Transformar escravos em seres humanos livres – autônomos, como dizem os educadores mais esclarecidos. E como é difícil: os nossos escravos dão a impressão de que não gostam de ser libertados. Mas não é verdade: eles têm é medo, medo de tentar e não dar certo, medo de serem castigados por seus ‘amos’ (que não precisam mais ‘mandar’ – eles, os escravos, já sabem muito bem obedecer sozinhos).
Aproveitando a oportunidade, vale incluir neste desabafo, minhas idéias contrárias aos modos de criar filhos (pelos pais) e educá-los (pelas escolas) que temos hoje. O fato é que o sujeito da aprendizagem não pode ser criado, porque se for criado não é mais sujeito. O sujeito da aprendizagem só pode nascer sozinho. É possível atrapalhá-lo. É possível reprimi-lo. É possível impedir que ele se desenvolva. É possível obrigá-lo a ser outra pessoa que não aquela que seria naturalmente. Mas não é possível criá-lo. Só é possível permitir que ele cresça, partindo da premissa de que esse ‘crescer’ é um dom natural, mais ou menos como as plantas: uma semente cresce e vira árvore, e a árvore cria galhos e folhas e dá flores e frutos. Nós podemos regar a terra e adubar de vez em quando. Mas não podemos fazer a planta crescer. Não podemos fazer esse processo acontecer. Nem precisamos – ele acontece sozinho. Claro, podemos descobrir as melhores condições externas para que um dado tipo de árvore dê o máximo de frutos possível. Mas não podemos forçar a árvore a produzir mais. Felizmente para as árvores, elas são imunes ao desejo humano. Se lhes damos as melhores condições, saem os melhores frutos e na quantidade máxima. Mas quem faz isso acontecer é a árvore, não nós. O mesmo se dá com a educação, eu acredito, e é isto que quero com a minha pesquisa.
É isso que quero e é tão difícil porque confiança e auto-estima não se pode dar a ninguém: é preciso criar as condições para que elas surjam. E aqueles encarregados de educar outros seres humanos não podem mais permanecer sentados sobre o saber que acumularam, não podem trabalhar em cima da idéia de que a educação escolar deve transmitir conhecimento, aconselhar, atarefar. Acho um absurdo (cruel muitas vezes) isto de a escola, a família, os amigos, enfim, as pessoas insistirem em querer mudar o outro, controlar, transformar o outro em algo conveniente a si. Seria um sonho se as pessoas pudessem admirar o outro como se admira um pôr-do-sol, simplesmente deixar o outro “ser”. Talvez possamos apreciar um pôr-do-sol justamente pelo fato de não o podermos controlar. Quando olho para um pôr-do-sol, não me ponho a dizer: “Diminua um pouco o tom do laranja no canto direito, ponha um pouco mais de vermelho púrpura na base e use um pouco mais de rosa naquela nuvem”. Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do-sol. Olho com admiração a sua evolução. Gosto mais de mim quando consigo contemplar assim qualquer pessoa...
E nesta minha viagem, Winnicott ficou para trás. Tudo bem, depois retomo, este texto já se estendeu demais, há tempos não escrevia um desabafo tão grande!
Me preparo há uns quatro anos para entrar no mestrado, é um preparo que envolve mais meu amadurecimento pessoal do que técnico. A dificuldade técnica, em si, já não é problema, passei até na prova de inglês, que eu achava o mais difícil. A entrada na USP também já não é problema, tenho uma orientadora que foi com a minha cara, enfim, tudo parecia perfeito... Mas, como nada foi fácil pra mim, não seria diferente agora. Aconteceu que a abençoada orientadora que me acolheu (com carinho, inclusive), disse sem o menor senso de compaixão: “olha, entendo sua posição teórica, mas eu não conheço Carl Rogers, preciso que você se fundamente em Winnicott. Você precisa entender que não é você quem escolhe a pesquisa, ela é quem te escolhe!!!!!!!!!!!”.
O número de exclamações não traduz minha indignação. Pra quem lê isto pode parecer problema pequeno, mas não é. E isto tem a ver com o tal amadurecimento que eu busco alcançar para entrar no mestrado. Por algum momento eu pensei que eu poderia falar sobre a educação, sobre minha paixão por Carl Rogers, sobre a temática da autonomia e da autogestão que tanto me excita e estimula. Mas eu terei que abrir mão... e isto não é tarefa fácil, principalmente porque terei que me fundamentar em Winnicott. Sabe o que isto significa? P-S-I-C-A-N-Á-L-I-S-E.
E eu me desagrado inteiramente da psicanálise: meu santo não bate, não encaixa no meu corpo, não consigo nem abstrair. Eu poderia me fundamentar em qualquer outro teórico: Jung, Perls (Gestalt), Merleau-Ponty (Existencialismo), enfim, mas psicanálise é de matar.
Este episódio me fez inclusive lembrar que Freud não gostava de música. Pense: uma Arteterapeuta (que anseia pela educação democrática, de perspectiva humanista) defendendo as idéias de Freud, e ele nem de música gostava! Acho que se ele gostasse, iria preferir o caminho da música clássica, onde há pautas e regras escritas, e onde aquele que ‘desafina’ deve aprender a ‘tocar direito’, ele jamais iria se render aos encantos do Jazz, que como eu, prefere criar sempre um acompanhamento apropriado para a melodia tocada - pelo paciente ou pelo aluno, em vez de seguir o racionalismo cheio de formulações que Freud impõe com seu discurso.
Quem lê este desabafo dramático pode até pensar que o absurdo está mais em mim, do que na psicanálise. Eu até concordo, estou percebendo que em meio ao meu romantismo humanista, estou “hipostatizando” a psicanálise. Só pra constar, hipóstase é uma noção filosófica que significa originariamente “substância”, mas que com a evolução do pensamento humano ganhou a conotação de uma abstração considerada como real, uma ficção. Minha idéia da psicanálise é muito difusa, é uma hipóstase. Um conceito em torno do qual se tem respeito, mas que é e que permanece como uma relíquia incapaz de ser aplicado ou de adaptar-se à realidade.
Pois bem, em meio a esta turbulência toda, lembrei-me das palavras de um ser iluminado que conheci. Neste domingo ele me colocou deitada em seu abraço e disse: “FOCO NO RESULTADO E NÃO NO PROBLEMA”.
Aí peguei três horas da noite de ontem, coloquei debaixo do braço e fui ao encontro de Winnicott.
O primeiro ponto que gostaria de mencionar é que Winnicott coloca como central a noção do falso self. Antes de entender, meus questionamentos foram todos de extrema crítica: “se um indivíduo não é ele mesmo, quem será ele? Ele não sabe que ele não é ele mesmo, de que modo devemos tratá-lo, estudá-lo, entendê-lo? De que vale, afinal, uma filosofia, uma sociologia, e mesmo uma psicologia que estudam falsos seres humanos?”. Depois de me indignar, contar até cinqüenta, pedir a ajuda de Deus, eu parti para a compreensão: a maneira como ele expõe o tema dá a entender (o que eu concordo) que a maioria esmagadora das pessoas é capaz de uma crueldade insana sempre que se encontra em situações onde alguém mais ‘assume’ a responsabilidade pelas consequências. Winnicott vai contra a idéia de que a natureza humana é ruim, mas diz que o Ser Humano, em sua maioria, NÃO é um ser moralmente responsável (pensei nos nazistas feitos prisioneiros após o fim da guerra, que justificavam seu comportamento monstruoso alegando que estavam ‘apenas obedecendo ordens’), mas desenvolve um falso self quando se deixam levar por outras pessoas. Winnicott diz que o self é saudável e tende a evolução, se for desenvolvido em situações adequadas, e o papel do educador e do psicólogo é justamente facilitar esta condição.
Nisto achei um ponto de convergência entre Winnicott e Rogers. O primeiro, brigou ao longo da vida contra a submissão e Rogers a favor da autonomia. Dá na mesma? Talvez sim, mas ainda tenho uma cisma contra a psicanálise (talvez seja preconceito), preferia então Machado de Assis que escreveu vastamente sobre esse mesmo fenômeno (talvez eu o inclua nos meus próximos projetos rs).
Outro ponto de convergência entre Winnicott, Rogers e eu (santa pretensão) é a crença de que o ser humano vem ao mundo e começa a inventar. Ele nasce assim: recria esse mundo que nós todos conhecemos. Só muito tempo depois (‘muito’ na perspectiva do bebê, claro) ele começa a aprender. Quando isso acontece desse modo, teremos um adulto saudável, generoso, forte, capaz de compaixão e respeito pelo outro. Quando os que cuidam dele acham que deveria ser ao contrário, primeiro ele tem que aprender, e depois poderá inventar o quiser, ele perde a capacidade de inventar, porque se torna um escravo. Sei que é utopia, mas eu queria enquanto educadora libertar escravos. Transformar escravos em seres humanos livres – autônomos, como dizem os educadores mais esclarecidos. E como é difícil: os nossos escravos dão a impressão de que não gostam de ser libertados. Mas não é verdade: eles têm é medo, medo de tentar e não dar certo, medo de serem castigados por seus ‘amos’ (que não precisam mais ‘mandar’ – eles, os escravos, já sabem muito bem obedecer sozinhos).
Aproveitando a oportunidade, vale incluir neste desabafo, minhas idéias contrárias aos modos de criar filhos (pelos pais) e educá-los (pelas escolas) que temos hoje. O fato é que o sujeito da aprendizagem não pode ser criado, porque se for criado não é mais sujeito. O sujeito da aprendizagem só pode nascer sozinho. É possível atrapalhá-lo. É possível reprimi-lo. É possível impedir que ele se desenvolva. É possível obrigá-lo a ser outra pessoa que não aquela que seria naturalmente. Mas não é possível criá-lo. Só é possível permitir que ele cresça, partindo da premissa de que esse ‘crescer’ é um dom natural, mais ou menos como as plantas: uma semente cresce e vira árvore, e a árvore cria galhos e folhas e dá flores e frutos. Nós podemos regar a terra e adubar de vez em quando. Mas não podemos fazer a planta crescer. Não podemos fazer esse processo acontecer. Nem precisamos – ele acontece sozinho. Claro, podemos descobrir as melhores condições externas para que um dado tipo de árvore dê o máximo de frutos possível. Mas não podemos forçar a árvore a produzir mais. Felizmente para as árvores, elas são imunes ao desejo humano. Se lhes damos as melhores condições, saem os melhores frutos e na quantidade máxima. Mas quem faz isso acontecer é a árvore, não nós. O mesmo se dá com a educação, eu acredito, e é isto que quero com a minha pesquisa.
É isso que quero e é tão difícil porque confiança e auto-estima não se pode dar a ninguém: é preciso criar as condições para que elas surjam. E aqueles encarregados de educar outros seres humanos não podem mais permanecer sentados sobre o saber que acumularam, não podem trabalhar em cima da idéia de que a educação escolar deve transmitir conhecimento, aconselhar, atarefar. Acho um absurdo (cruel muitas vezes) isto de a escola, a família, os amigos, enfim, as pessoas insistirem em querer mudar o outro, controlar, transformar o outro em algo conveniente a si. Seria um sonho se as pessoas pudessem admirar o outro como se admira um pôr-do-sol, simplesmente deixar o outro “ser”. Talvez possamos apreciar um pôr-do-sol justamente pelo fato de não o podermos controlar. Quando olho para um pôr-do-sol, não me ponho a dizer: “Diminua um pouco o tom do laranja no canto direito, ponha um pouco mais de vermelho púrpura na base e use um pouco mais de rosa naquela nuvem”. Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do-sol. Olho com admiração a sua evolução. Gosto mais de mim quando consigo contemplar assim qualquer pessoa...
E nesta minha viagem, Winnicott ficou para trás. Tudo bem, depois retomo, este texto já se estendeu demais, há tempos não escrevia um desabafo tão grande!
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Não está sendo fácil trabalhar as metas expostas no texto anterior, mas graças à ação de Deus (que tem transformado minhas vontades) e, apesar de toda a dor e noites sem dormir, estou me saindo bem.
Na verdade, consegui equilibrar a parte prática da minha vida, mas minha alma está em pedaços ainda, mais do que ferida. Os resíduos de egoísmo, egocentrismo, as mentiras, ainda parecem estar presentes e eu tenho a sensação de uma marca da qual não conseguirei me recuperar.
Contudo, sinto-me muito abençoada por Deus. Ele conhece meu coração, é sensível às minhas necessidades e sempre me dá a força necessária para vencer (a mim mesma, principalmente) e ir além da imensa dor, e de todo o desrespeito, de toda falta de compreensão...
Ás vezes me sinto desconfortável perante Deus, pois Ele sempre atende as minhas orações, e eu pouco tenho feito para retribuir. Reconhecer isto não muda nada, eu sei. Eu preciso agir, preciso me empenhar no desenvolvimento de algumas virtudes atrofiadas por falta de uso, para que elas sirvam de algum modo às pessoas a minha volta.
Algumas qualidades negativas me perturbam tanto... preciso transformar minha falta de congruência, de genuinidade, e principalmente a falta de confiança na minha intuição, naquela voz interna que nos fala sutilmente e que, acreditem ou não, é dificílimo de ouvir, pelo menos pra mim... é como diz Alberto Caeiro: “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Se esta frase de Caeiro fosse parafraseada em referencia a minha questão, ela seria assim: “Não é bastante ter intuição e sabê-la, é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. É preciso paz, descanso, serenidade. É necessário aprender a ouvir e aprender com as dificuldades, pois elas nos dão a oportunidade de evoluir do nível humano comum, a um nível de maior amor e compaixão, maior consciência.
Hoje eu sei reconhecer que fui responsável pelas situações difíceis pela qual passei, pois escolhi confiar em indivíduos negativos, escolhi usar mal minha inteligência e permitir que descarregassem sobre mim amarguras, histórias, traumas e mau humor. Por tempo demais suportei tratamento indigno, humilhações, medo, grosserias e desamor, perdendo muito tempo e energia, na tentativa de conseguir um bom relacionamento com pessoas que querem viver em uma sintonia diferente da minha.
Iniciei uma nova etapa na minha vida em companhia de gente mais positiva, cheia de boas intenções, gente amiga, que se preocupa em ser saudável, alegre, próspera e iluminada. Quero compartilhar sentimentos nobres, aprender com os outros e ajudar, procurarei valorizar todas as conquistas que fiz e o amor que tenho em mim, evitando todas queixas desnecessárias, que me seguram nesta freqüência, de onde estou aos poucos saindo.
Sinto-me em paz com minha consciência e sei minha evolução provém de Deus. Escrevo este texto principalmente pra dizer à Deus que me comprometo a retribuir à Ele trabalhando para o bem do próximo, para sua alegria, seu bem-estar, atuando como agente catalizador de harmonia, entendimento, saúde, crescimento, entusiasmo, prosperidade e amor. Tudo farei sempre em harmonia e permissão de nosso Criador eterno e infinito que sinto como único poder real, atuante dentro e fora de mim.
Na verdade, consegui equilibrar a parte prática da minha vida, mas minha alma está em pedaços ainda, mais do que ferida. Os resíduos de egoísmo, egocentrismo, as mentiras, ainda parecem estar presentes e eu tenho a sensação de uma marca da qual não conseguirei me recuperar.
Contudo, sinto-me muito abençoada por Deus. Ele conhece meu coração, é sensível às minhas necessidades e sempre me dá a força necessária para vencer (a mim mesma, principalmente) e ir além da imensa dor, e de todo o desrespeito, de toda falta de compreensão...
Ás vezes me sinto desconfortável perante Deus, pois Ele sempre atende as minhas orações, e eu pouco tenho feito para retribuir. Reconhecer isto não muda nada, eu sei. Eu preciso agir, preciso me empenhar no desenvolvimento de algumas virtudes atrofiadas por falta de uso, para que elas sirvam de algum modo às pessoas a minha volta.
Algumas qualidades negativas me perturbam tanto... preciso transformar minha falta de congruência, de genuinidade, e principalmente a falta de confiança na minha intuição, naquela voz interna que nos fala sutilmente e que, acreditem ou não, é dificílimo de ouvir, pelo menos pra mim... é como diz Alberto Caeiro: “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Se esta frase de Caeiro fosse parafraseada em referencia a minha questão, ela seria assim: “Não é bastante ter intuição e sabê-la, é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. É preciso paz, descanso, serenidade. É necessário aprender a ouvir e aprender com as dificuldades, pois elas nos dão a oportunidade de evoluir do nível humano comum, a um nível de maior amor e compaixão, maior consciência.
Hoje eu sei reconhecer que fui responsável pelas situações difíceis pela qual passei, pois escolhi confiar em indivíduos negativos, escolhi usar mal minha inteligência e permitir que descarregassem sobre mim amarguras, histórias, traumas e mau humor. Por tempo demais suportei tratamento indigno, humilhações, medo, grosserias e desamor, perdendo muito tempo e energia, na tentativa de conseguir um bom relacionamento com pessoas que querem viver em uma sintonia diferente da minha.
Iniciei uma nova etapa na minha vida em companhia de gente mais positiva, cheia de boas intenções, gente amiga, que se preocupa em ser saudável, alegre, próspera e iluminada. Quero compartilhar sentimentos nobres, aprender com os outros e ajudar, procurarei valorizar todas as conquistas que fiz e o amor que tenho em mim, evitando todas queixas desnecessárias, que me seguram nesta freqüência, de onde estou aos poucos saindo.
Sinto-me em paz com minha consciência e sei minha evolução provém de Deus. Escrevo este texto principalmente pra dizer à Deus que me comprometo a retribuir à Ele trabalhando para o bem do próximo, para sua alegria, seu bem-estar, atuando como agente catalizador de harmonia, entendimento, saúde, crescimento, entusiasmo, prosperidade e amor. Tudo farei sempre em harmonia e permissão de nosso Criador eterno e infinito que sinto como único poder real, atuante dentro e fora de mim.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Há um tempo em que é preciso abandonar
as roupas usadas, que já tem a forma do nosso
corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos
levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo
da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos
ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
(Fernando Pessoa).
A desorganização está acabando comigo. Na verdade não sei se é a desorganização, mas sei que algo está tirando minha paz. Já comentei com algumas pessoas. Tenho o sentimento constante de que tenho algo para fazer, ou de que preciso ir embora, simplesmente não consigo relaxar. Agora também dei pra ter insônia e acordar chorando.
Isto de abrir mão da pessoa amada - ou melhor, “desejada” - a troco de paz e de momentos melhores é algo que exige mais do que coragem. Implica uma mudança radical dos hábitos, dos projetos, das horas vagas, de tudo. É necessário ressignificar tudo, repensar... Mais do que se adaptar, é preciso se reformular.
Diante disto me vejo desequilibrada, desorganizada e perdida. Pensei que ao organizar minhas prioridades, meu foco, eu iria descansar um pouco (meu pensamento anda acelerado demais) e o mais importante: poderia investir minha energia em algo a ser edificado, e não à toa, em questões passadas e até mesmo encerradas que eu insisto em remoer.
Então elegi quatro questões gritantes que estão me perturbando, e coloquei o foco nelas como meta: (1) Acabar com as minhas dívidas até dezembro. (2) Investir na entrada ao mestrado. (3) Aproximar-me de algumas pessoas (alguns amigos, parentes e minha afilhada, principalmente). (4) Distanciar-me do Jeferson, já que no momento a amizade só está atrapalhando.
Mais tarde (poucas semanas depois) descobri que não estava tratando estas questões como meta, mas simplesmente como um desejo. E que, como eu disse, não se trata de organizar minha vida, é bem mais profundo: trata-se de uma autorreformulação (o que remete a estabelecer novas bases, além de uma mudança estrutural de hábitos – talvez não seja tão complexo).
Mas considerando que as quatro questões postas realmente precisam ser trabalhadas, escolhi investir minha energia no tratamento delas. Partindo do princípio de que para ter resultados diferentes é preciso fazer diferente, exponho como lidarei com cada uma destas questões:
1- DÍVIDAS - Ao mesmo tempo em que quero acabar com minhas dívidas, estou gastando ainda mais (com coisas que nem gastava antes, como baladas e afins). Além de gastar, as baladas me roubam o tempo que eu preciso para estudar, para me concentrar na segunda questão, que é investir na entrada do mestrado.
2- MESTRADO – estudar, estudar e estudar. Isto não será tão difícil, porque eu gosto e estou acostumada. A única coisa que atrapalha é a ansiedade, e o desespero de me enclausurar em casa pensando que lá fora o mundo acontece enquanto eu estudo. Mas de qualquer forma, até em razão das dívidas, o recolhimento é essencial.
3- APROXIMAÇÃO DAS PESSOAS – difícil é me afastar do convite do costumeiro. Até penso em diferentes possibilidades de lazer, de visitar velhos amigos, de me aproximar de algumas pessoas legais da minha família, mas eu não invisto nisto. Não sei o porquê. Claro que tudo isto também envolve dinheiro. Então esta questão vai ficar meio no “banhomaria”, a espera de oportunidades, não vou investir tanto nisto agora.
4- EX-MARIDO – nem preciso dizer que é o tópico mais difícil, que me rouba mais energia. Tem semanas que o sentimento ameniza, tem semanas que intensifica. Às vezes é saudade, outras vezes raiva, outras, desesperança, desânimo, luto... O sentimento nunca é de paz. Ao invés de me distanciar, sempre o procuro para novas interpretações dos fatos, para amizade, para sexo, para conversas que quase nunca me envolvem. Tenho como meta me afastar, o que não significa sumir. Por mais que seja desesperador pensar nele, sem tentar investigar se está tudo bem, sem tentar fazer com que ele assuma erros passados, ou perceba o quanto fui legal, boa amiga, boa amante, vou me esforçar. Primeiramente, comprometo-me a não mais ficar com ele. Pretendo me respeitar de verdade, o que é bem diferente de simplesmente dizer que eu me respeito.
Percebi que estas questões pairam sobre o desejo de transpô-las, mas esta transposição não se efetiva simplesmente por falta de atitude, por eu direcionar minha energia para o local errado. Sendo assim, vou experimentar seguir o exposto acima, vou concentrar minhas energias unicamente nisto: esquecer o que já passou e avançar para o que está a minha frente.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
CORAGEM
“No momento em que nos comprometemos,
a providência divina também se põe em movimento.
Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor.
Como resultado da atitude segue todas as formas
imprevistas de coincidências, encontros e ajuda
que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado
encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou
sonhar, você pode começar. A coragem contém em
si mesma, o poder, o gênio e a magia”. Goethe.
A coragem tem sido uma questão temática da minha existência atual. Há os que dizem que é a primeira das qualidades humanas, pois garante todas as outras. Eu vejo simplesmente como a virtude que mais tem me ajudado a enfrentar o fim do meu relacionamento e a busca de novas maneiras de ser. Adaptar-se a situação é fácil, difícil é aprender com ela. Tem que ter coragem...
É preciso coragem para lutar por si. Viver com alguém que não te olha por inteiro, que nega as suas lutas, que reforça suas fraquezas ao invés de te ajudar a desenvolver tuas virtudes, teu autorrespeito, é talvez o maior ato de covardia que alguém pode ter consigo mesmo, é negar a si mesmo.
Nutrir uma relação de ressentimentos impede o senso se paz. O preço é alto, muito mais alto do que a energia que se gasta em soltar as próprias amarras, em sair debaixo das asas do conforto. É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo os diversos riscos que a vida implica, do que permanecer estático como os covardes, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros.
Seria trágico se não fosse sátira... rsrsrs.
O fato é que meu jeito excêntrico sempre dificultou minha vida (é preciso ter coragem também para ser diferente), pois ao me distanciar do convencional, precisei buscar referencial em mim mesma, e isto fez com que eu me perdesse muitas vezes. Claro que tem o lado bom, pois sempre acabo me encontrando, e não apenas o encontro, mas também a busca me faz sentir êxtase, o que é bem gratificante. Isto de me perder, de permitir novos encontros comigo mesma, de procurar e criar referenciais próprios, de arriscar, é algo fundamental. É o que me fundamenta no sentido de dar firmeza, motivação e perspectiva. Além disso, entre erros e acertos, descobri que sempre que me perco é porque vou contra minhas verdades. Ir ao encontro da própria verdade é um ato de coragem. Sinto, como Dostoievski, que mentir para si mesmo está na origem de todas as falsidades. Prefiro arriscar, mesmo em meio as tempestades. E termino com Guimarães Rosa.
“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
É preciso coragem para lutar por si. Viver com alguém que não te olha por inteiro, que nega as suas lutas, que reforça suas fraquezas ao invés de te ajudar a desenvolver tuas virtudes, teu autorrespeito, é talvez o maior ato de covardia que alguém pode ter consigo mesmo, é negar a si mesmo.
Nutrir uma relação de ressentimentos impede o senso se paz. O preço é alto, muito mais alto do que a energia que se gasta em soltar as próprias amarras, em sair debaixo das asas do conforto. É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo os diversos riscos que a vida implica, do que permanecer estático como os covardes, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros.
Seria trágico se não fosse sátira... rsrsrs.
O fato é que meu jeito excêntrico sempre dificultou minha vida (é preciso ter coragem também para ser diferente), pois ao me distanciar do convencional, precisei buscar referencial em mim mesma, e isto fez com que eu me perdesse muitas vezes. Claro que tem o lado bom, pois sempre acabo me encontrando, e não apenas o encontro, mas também a busca me faz sentir êxtase, o que é bem gratificante. Isto de me perder, de permitir novos encontros comigo mesma, de procurar e criar referenciais próprios, de arriscar, é algo fundamental. É o que me fundamenta no sentido de dar firmeza, motivação e perspectiva. Além disso, entre erros e acertos, descobri que sempre que me perco é porque vou contra minhas verdades. Ir ao encontro da própria verdade é um ato de coragem. Sinto, como Dostoievski, que mentir para si mesmo está na origem de todas as falsidades. Prefiro arriscar, mesmo em meio as tempestades. E termino com Guimarães Rosa.
“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Sobre o amor e o egoísmo.
Em janeiro enviei um e-mail para Gua, desejando um feliz ano novo e ela respondeu que não podíamos continuar fingindo que estava tudo bem entre nós. Eu pensei... pensei... pensei... Em meio à neblina da consciência confusa, conseguia ouvir uma rebelião interna esbravejando palavras incompreensíveis, mas infelizmente eu não consegui entender nada. Retornei o e-mail dizendo que havia percebido um afastamento da parte dela, mas que não sabia o motivo. Então ela se chateou (na verdade, demonstrou estar profundamente decepcionada) e deixou de atender minhas ligações e responder meus e-mails.
Fiz várias tentativas de aproximação, e nada. Nestas tentativas eu queria que ela me desse uma pista do que estava acontecendo (sei, não tem cabimento), mas eu simplesmente não conseguia entender. Então considerei que a compreensão de algo fica borrada quando existe afetividade entre nós e o que queremos entender, e resolvi dar tempo ao tempo.
Dado o tempo, esta semana enviei uma mensagem no celular dela perguntando se podia ligar. Ela respondeu, simplesmente, “pode”. Respirei fundo e liguei. Não lembro como iniciamos, mas sei que ela logo tocou no assunto:
- “The, não tem como a gente conversar normalmente antes de acertamos nossas questões. Eu fiquei profundamente magoada, depois de ter lhe dedicado anos de terapia, você diz que não faz idéia do que pode estar acontecendo entre nós. Isto significa que continuo sozinha com a minha dor. Eu até entendo que seja difícil olhar para algumas coisas, mas eu não vou te acusar de nada. Um dia você vai se dar conta por si”.
Enquanto ouvia isto minha mente fervia, fiquei bem nervosa e confusa, e sem conseguir refletir fui me explicando:
- “A única coisa que pensei como empecilho na nossa amizade é que muitas vezes me peguei angustiada por não conseguir discernir até onde eu podia entrar em sua vida pessoal, pois nossa relação paciente-terapeuta foi muito bem estabelecida e profunda (encaixotei nossa relação num clichê e através desta imagem, parada e fixa, me relacionei – penso eu). Quando eu entrava na sua vida, quando perguntava algo sobre sua rotina, eu sentia que estava sendo inconveniente, ficava desconfortável, e mesmo você dando todos os sinais de abertura, ainda assim, eu não consegui te alcançar enquanto pessoa. A isto se soma minhas atitudes de descuido e egoísmo: eu ofereci pouco. Mais pedi do que me propus a dar. Além disso, cobrei muitas vezes, sem olhar suas possibilidades”.
E então, já com outro tom de voz, ela disse:
- “É isso, você entendeu tudo! Senti que só eu era sua amiga, e você só queria receber, e depois você veio e falou que não percebia nada... eu passei a perceber muita coisa em suas relações, mas ainda está confuso pra mim, por isto pedi suas colocações”.
Nossa conversa não foi exatamente assim, acho que eu não disse tudo o que eu escrevi, mas gostaria de ter dito muito mais. Por exemplo, gostaria de ter dito que “a isto também se soma...” o exclusivismo que eu exijo das pessoas, o despeito que muitas vezes sinto, outrossim, a ingratidão, a secura, enfim, uma série de qualidades negativas que eu preciso substituir por algumas virtudes, que há tempos precisam crescer, florescer.
A semana seguiu sem que eu parasse de pensar nisso tudo. Analisei minhas relações próximas, com meus amigos, parentes, colegas de trabalho, até perguntei a opinião de alguns a respeito destas minhas atitudes.
Notei uma coisa muito estranha: tenho relações em que só eu ofereço, e outras em que eu apenas recebo. Das que eu só recebo, eu cobro muito, cobro que elas compensem o que me falta nas que eu apenas ofereço. Ainda não está claro pra mim, mas tem alguma coisa a ver com esta coisa confusa que tentei descrever. Claro que não só isto, há muito mais por trás desta questão louca, e eu quero conseguir aproximar-me do que quer que esteja se passando dentro de mim. Fico desapontada quando percebo que tenho muito medo ou me sinto ameaçada demais para me permitir entrar em contato com o que estou vivendo, e que por isso não fui (e não sou) honesta ou verdadeira, principalmente com as pessoas que gostam de mim.
No final da ligação, eu disse à Gua que gostaria de me reaproximar, que queria ser amiga dela. Não entendi direito se ela quer, mas eu quero muito viver esta relação, encontrar pontos de contato e de diferença entre nós, que somam, e que pode nos levar a ir mais adiante. Desta vez, cuidarei para que seja uma relação de reciprocidade, e proximidade. Ninguém pode ficar de fora, ou de cima “observando”. Sei que numa amizade não há quem dá conselhos, mas não se mostra, quem ensina sem se expor, sem estar visível. Faltou-me observar, e faltou também acreditar na minha intuição, faltou ouvir aquela rebelião interna que eu mencionei no início deste texto. Mas foi uma experiência estruturante, que partiu de uma relação real, de pessoas reais, de sentimentos verdadeiros. Dizemos-nos amigas. Chama-se amor.
Fiz várias tentativas de aproximação, e nada. Nestas tentativas eu queria que ela me desse uma pista do que estava acontecendo (sei, não tem cabimento), mas eu simplesmente não conseguia entender. Então considerei que a compreensão de algo fica borrada quando existe afetividade entre nós e o que queremos entender, e resolvi dar tempo ao tempo.
Dado o tempo, esta semana enviei uma mensagem no celular dela perguntando se podia ligar. Ela respondeu, simplesmente, “pode”. Respirei fundo e liguei. Não lembro como iniciamos, mas sei que ela logo tocou no assunto:
- “The, não tem como a gente conversar normalmente antes de acertamos nossas questões. Eu fiquei profundamente magoada, depois de ter lhe dedicado anos de terapia, você diz que não faz idéia do que pode estar acontecendo entre nós. Isto significa que continuo sozinha com a minha dor. Eu até entendo que seja difícil olhar para algumas coisas, mas eu não vou te acusar de nada. Um dia você vai se dar conta por si”.
Enquanto ouvia isto minha mente fervia, fiquei bem nervosa e confusa, e sem conseguir refletir fui me explicando:
- “A única coisa que pensei como empecilho na nossa amizade é que muitas vezes me peguei angustiada por não conseguir discernir até onde eu podia entrar em sua vida pessoal, pois nossa relação paciente-terapeuta foi muito bem estabelecida e profunda (encaixotei nossa relação num clichê e através desta imagem, parada e fixa, me relacionei – penso eu). Quando eu entrava na sua vida, quando perguntava algo sobre sua rotina, eu sentia que estava sendo inconveniente, ficava desconfortável, e mesmo você dando todos os sinais de abertura, ainda assim, eu não consegui te alcançar enquanto pessoa. A isto se soma minhas atitudes de descuido e egoísmo: eu ofereci pouco. Mais pedi do que me propus a dar. Além disso, cobrei muitas vezes, sem olhar suas possibilidades”.
E então, já com outro tom de voz, ela disse:
- “É isso, você entendeu tudo! Senti que só eu era sua amiga, e você só queria receber, e depois você veio e falou que não percebia nada... eu passei a perceber muita coisa em suas relações, mas ainda está confuso pra mim, por isto pedi suas colocações”.
Nossa conversa não foi exatamente assim, acho que eu não disse tudo o que eu escrevi, mas gostaria de ter dito muito mais. Por exemplo, gostaria de ter dito que “a isto também se soma...” o exclusivismo que eu exijo das pessoas, o despeito que muitas vezes sinto, outrossim, a ingratidão, a secura, enfim, uma série de qualidades negativas que eu preciso substituir por algumas virtudes, que há tempos precisam crescer, florescer.
A semana seguiu sem que eu parasse de pensar nisso tudo. Analisei minhas relações próximas, com meus amigos, parentes, colegas de trabalho, até perguntei a opinião de alguns a respeito destas minhas atitudes.
Notei uma coisa muito estranha: tenho relações em que só eu ofereço, e outras em que eu apenas recebo. Das que eu só recebo, eu cobro muito, cobro que elas compensem o que me falta nas que eu apenas ofereço. Ainda não está claro pra mim, mas tem alguma coisa a ver com esta coisa confusa que tentei descrever. Claro que não só isto, há muito mais por trás desta questão louca, e eu quero conseguir aproximar-me do que quer que esteja se passando dentro de mim. Fico desapontada quando percebo que tenho muito medo ou me sinto ameaçada demais para me permitir entrar em contato com o que estou vivendo, e que por isso não fui (e não sou) honesta ou verdadeira, principalmente com as pessoas que gostam de mim.
No final da ligação, eu disse à Gua que gostaria de me reaproximar, que queria ser amiga dela. Não entendi direito se ela quer, mas eu quero muito viver esta relação, encontrar pontos de contato e de diferença entre nós, que somam, e que pode nos levar a ir mais adiante. Desta vez, cuidarei para que seja uma relação de reciprocidade, e proximidade. Ninguém pode ficar de fora, ou de cima “observando”. Sei que numa amizade não há quem dá conselhos, mas não se mostra, quem ensina sem se expor, sem estar visível. Faltou-me observar, e faltou também acreditar na minha intuição, faltou ouvir aquela rebelião interna que eu mencionei no início deste texto. Mas foi uma experiência estruturante, que partiu de uma relação real, de pessoas reais, de sentimentos verdadeiros. Dizemos-nos amigas. Chama-se amor.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Sobre o fim...
“Falta saber soltar, deixar ir embora. Falta aceitar o fim. Um fim que pode ser definitivo ou não, mas que precisa acontecer como fim, ponto final de uma trajetória. Fazer acrobacias mentais e sentimentais tentando inventar soluções e novas interpretações dos fatos só prolonga o sangramento, enfraquecendo quem sofre”...
... Começo o texto assim, meio que do meio, densamente, duramente, dramaticamente, simplesmente porque é assim que sinto minha dor, pulsante, intensa em mim.
Quando dividimos a vida com alguém, quando nos entregamos à relação corremos o risco de nos anular enquanto indivíduo, de negar nossa jornada individual, única e gloriosa, se desta forma a concebermos. Dar-se conta de estar só, em si, já é possibilidade de transcendência ou decadência.
O medo da solidão nos faz acreditar que o outro sempre vai estar lá, faz prometermos ao outro estar sempre lá, como se a vida fosse algo estático, como se tudo pudesse ser planejado, controlado e mensurado.
Reza o senso comum que um dos principais recursos que utilizamos é a adaptação. Eu até concordaria se minhas experiências não me mostrassem que adaptação acaba por se transformar, na prática, em submissão. Não é de todo o mal, às vezes eu exagero um pouco.
Acho que no fundo eu me considero sortuda por sofrer. Significa que não sou do tipo que acaba adormecendo a sensibilidade a fim de sobreviver. Sou forte porque não suporto o tranco como um boi mudo que leva a carga, e sim como pessoa atenta que não se deixa anestesiar. É do forte tirar as conclusões e aceitar as conseqüências, reconhecer a cruz e viver com ela, ou jogá-la fora e mudar de rumo. É da pessoa que agüenta o tranco fazer o que é preciso, mesmo que não é o que desejaria fazer. E, às vezes, não é falando e agindo que se mostra força, mas justamente o contrário, calando e continuando a andar, custe o que custar. Essa postura é indispensável quando se está rompendo uma relação que dá trabalho, produz escândalos e sofrimento. Ou simplesmente dor. Mas a consciência do que é justo é maior do que o “coitadinho de mim, ou dele, ou dela”. É absolutamente indispensável saber agüentar o tranco quando se aposta em si mesmo, aumenta nossa imunidade psicológica. E isto certamente é mais saudável do que se mutilar para estar com o outro, como quem não acredita que pode ser amado por aquilo que é.
... Começo o texto assim, meio que do meio, densamente, duramente, dramaticamente, simplesmente porque é assim que sinto minha dor, pulsante, intensa em mim.
Quando dividimos a vida com alguém, quando nos entregamos à relação corremos o risco de nos anular enquanto indivíduo, de negar nossa jornada individual, única e gloriosa, se desta forma a concebermos. Dar-se conta de estar só, em si, já é possibilidade de transcendência ou decadência.
O medo da solidão nos faz acreditar que o outro sempre vai estar lá, faz prometermos ao outro estar sempre lá, como se a vida fosse algo estático, como se tudo pudesse ser planejado, controlado e mensurado.
Reza o senso comum que um dos principais recursos que utilizamos é a adaptação. Eu até concordaria se minhas experiências não me mostrassem que adaptação acaba por se transformar, na prática, em submissão. Não é de todo o mal, às vezes eu exagero um pouco.
Acho que no fundo eu me considero sortuda por sofrer. Significa que não sou do tipo que acaba adormecendo a sensibilidade a fim de sobreviver. Sou forte porque não suporto o tranco como um boi mudo que leva a carga, e sim como pessoa atenta que não se deixa anestesiar. É do forte tirar as conclusões e aceitar as conseqüências, reconhecer a cruz e viver com ela, ou jogá-la fora e mudar de rumo. É da pessoa que agüenta o tranco fazer o que é preciso, mesmo que não é o que desejaria fazer. E, às vezes, não é falando e agindo que se mostra força, mas justamente o contrário, calando e continuando a andar, custe o que custar. Essa postura é indispensável quando se está rompendo uma relação que dá trabalho, produz escândalos e sofrimento. Ou simplesmente dor. Mas a consciência do que é justo é maior do que o “coitadinho de mim, ou dele, ou dela”. É absolutamente indispensável saber agüentar o tranco quando se aposta em si mesmo, aumenta nossa imunidade psicológica. E isto certamente é mais saudável do que se mutilar para estar com o outro, como quem não acredita que pode ser amado por aquilo que é.
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