quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sem perfumar a Flor.

Estes dias ouvi uma garota recitando uma poesia de João Cabral de Melo Neto – “Os Três Mal-Amados”. Eu já tinha ouvido esta poesia algumas vezes, mas foi diferente desta última. Lembrei-me de uma entrevista de João Cabral ao jornal “Folha de S. Paulo”, em que ele dizia que a arte de Manolete lhe ensinara a eliminar da poesia todos os seus excessos. Ele disse que aprendeu com Manolete a não poetizar o poema (quer dizer, fazer um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos), e se colocou contundente contra qualquer derramamento emotivo. Cabral disse que o problema de muitos poetas é fazer um poema poético, ou seja, perfumar a flor - é como você plantar uma rosa e depois achar que a rosa não está cheirando o suficiente e aí pôr, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais — ou seja, perfuma o poema. Na época em que eu li isto achei no mínimo curioso, refleti um pouco, mas só agora isto veio a ter sentido, de fato, pra mim. É interessante como relações se fazem na mente, espontaneamente, independente de qualquer reflexão e disto emergem fechamentos ou espantosas ampliações a questões antigas.

A questão é que eu faço isto sempre: isto de colocar perfume na Flor. Coloquei em maiúsculo porque a Flor sou eu. Coloco perfume na Flor (que sou eu) supervalorizando minhas qualidades, como se em mim elas fossem mais atrativas do que nas outras pessoas. Coloco perfume na Flor toda vez que tenho atitudes arrogantes e soberbas, como quem faz questão de evidenciar o quanto é importante, o quanto se destaca, o quanto se considera merecedora por ser ética, o quanto é digna de reconhecimento, etc e tal. Isto tudo como forma de cultuar a eterna performance de si mesmo, ou seja: eu sou isto e eu sou maravilhosa.

É certo que viver de modo a qualificar eticamente as vontades não é pra qualquer um. Mas eu faço isto porque acredito que vale muito a pena uma vida virtuosa, e não porque sou uma heroína livre de desejos egoístas. E outra: este modo de viver é só um ideal de vida, e nem sempre (ou quase nunca) se efetiva. E eu acredito que o problema está justamente neste ponto: por eu não conseguir efetivar o meu ideal de vida da maneira como gostaria, acabo (por necessidade egóica, talvez) evidenciando os aspectos que já consegui desenvolver. Talvez por medo de não conseguir “chegar lá”, eu faça isto de destacar “o tanto” que já consegui, dando uns retoques de modo a abrilhantar este “tanto”, ou seja, coloco perfume nas minhas vitórias e as destaco na melhor prateleira, como se elas não fossem válidas em si.

Isto só vai mudar no momento em que eu identificar meu real valor, em que eu me dar conta das minhas “potências” (no sentido aristotélico do termo), não mais para evidenciá-las, mas para desenvolvê-las. Não com o propósito de chegar lá, mas sim de me sentir aqui, inteira, certa do que sou, confiante, segura para o próximo passo.

E como é do meu feitio, encerro por dizer quem é o tal Manolete, inspirador de João Cabral. Pois bem, ele foi um toureiro. Foi também um ser humano muito retraído, calado e de uma curiosidade intelectual enorme. Dizem que quando ele se encontrava com qualquer sujeito que estava falando de um assunto que ele não entendia, ele não pronunciava uma palavra, como modo de suprir aquela falha de cultura – que ele não teve porque foi obrigado a trabalhar. Em um de seus livros, Cabral analisou as diferentes formas de tourear dos mais renomados toureiros, e concluiu que o melhor deles era Manolete, apelidado de “El Monstruo” pela maneira seca, sem firulas, com que enfrentava o touro. Deste modo, agradecida pela inspiração, remato com um trecho da poesia de João Cabral em referência a Manolete:

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha,
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria,
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

E que venha 2011...

O ano chega ao final, afinal tudo chega... E por falar em final, to ficando boa nisto de lidar com “finais” e já aprendi, inclusive, a tratar os finais com carinho, já que se trata sempre possibilidade de um novo começo. E neste caso é o começo de um novo ano.
Termino o ano com aquela sensação de sempre: a de ter feito o que eu deveria fazer. A maneira como me relaciono com as minhas vivencias invariavelmente reforça o meu sentimento de certeza perante minhas escolhas. Talvez seja porque eu tenha esta coisa chamada consciência. O problema, às vezes, está em eu ter outras coisas, chamadas: coração, estomago, fígado, vísceras. Eu penso demais e sinto demais. Em mim o instante dura, eu vivo num presente incessante. Pura duração. E é isto que às vezes me rouba a energia que eu deveria empregar nos meus projetos, nos meus objetivos. É isto o que me faz, muitas vezes, ser mais sentimental que prática. E quando eu falo em projetos e objetivos, não me refiro a coisas grandes. Eu não acredito em grandes projetos quando o assunto é evolução humana. E o meu objetivo é a evolução humana: a minha. Eu acredito em coisas moleculares. Mas mesmo sendo pequenas, as coisas, “o tudo” não deixa de ser intenso pra mim. Eu me permito ser possuída pelas coisas. Mas eu permito também que as coisas acabem, e da mesma forma (com a mesma magnitude) que eu as sinto nascendo, crescendo, eu as sinto morrer também. E a morte não é fácil sentir. A morte é o nascimento pelo avesso, como uma fotografia no negativo, onde tudo é igualzinho só que ao contrário. A sensação da morte é como a de uma água descendo pelo ralo com muita força.
Mas como eu já disse várias vezes: eu quero sentir tudo. Estou viva porque há uma excitação que me percorre. A vida vibra em mim em cada célula. A vida é isto: contrair e expandir. Receber e deixar ir. Sinto muito pelos os que não permitem que isto aconteça. Como se viver os sentimentos fizesse a gente morrer rápido. Então as pessoas contêm. Guarda a vida. Como se guardando ela fosse durar mais.
É mais ou menos isto: estou preparada para contrair e expandir em 2011. E começo com algumas prioridades (objetivas e subjetivas), sendo que umas são urgentes, e outras complexas demais para que eu possa garantir aqui plena execução. Espero me perdoar caso eu não consiga cumprir tudo o que me proponho, mas isto não é um pedido de desculpa adiantado, ao contrário: isto é só porque já me convenci de que o tempo não se curva e de que nada resolve lidar com o tempo como algo objetivo, que está aí para ser organizado e manipulado, longe disto, eu parei de lutar contra o tempo. Hoje só exerço instantes. Com isto eu ganho presença...
Mas como a praticidade também não é algo que podemos negligenciar, descrevo, enfim, as minhas prioridades, que giram em torno do que assoalho a seguir:

Prioridades Objetivas:

• Parar de fumar.
• Guardar dinheiro.
• Aprender a tocar violão.
• Estudar inglês.
• Entrar no mestrado.
• Profissionalmente fazer o que me agrega sentido.
• Manter meu peso entre 53 e 54 kilos.
• Cuidar da minha vaidade e aparência.

Prioridades Subjetivas:

• Cuidar da minha vida social.
• Desenvolver as seguintes qualidades positivas:
Aparelhar o tempo.
Confiar na intuição.
Focar na espiritualidade.

• Trabalhar as seguintes qualidades negativas:
Egoísmo.
Mentira.
Timidez / insegurança.
Supervalorização / baixa valorização.
Ansiedade
Impulsividade.
Carência.

Poucas ressalvas a respeito de alguns itens:
A questão do egoísmo se esbarra com a necessidade de manter a minha alteridade (e respeitar a do outro também, claro). Espero encontrar um equilíbrio, já que não vou abrir mão de atender primeiramente – e sempre – o meu universo particular. Todos sabem que sou altruísta, mas que também não me anulo para satisfazer as necessidades de alguém. Da mesma forma, não cobrarei do outro que tente decodificar as minhas.
Sobre aparelhar o tempo. Quero deixar claro (pra mim mesma) que falo do tempo imaginário, porque o tempo do mundo sério já é bem organizado. Vou explicar: existe o tempo do mundo sério e o tempo imaginário: no mundo ‘sério’ podem ser 11 horas da manhã, em tal e tal dia, mês e ano, mas no universo particular em que estamos pode ser a terceira volta, o quarto ato, o movimento allegro ou o segundo beijo. Quero dizer então que preciso definir minhas prioridades e organizar meu tempo subjetivo para realizá-las, porque o meu problema é o excesso de “fazer”, é querer fazer tudo de uma vez, é estabelecer metas extremistas, que me roubam momentos de lazer, de ludicidade, e que me deixam presa no mundo sério. Aliás, a seriedade é uma característica da qual me livrei a pouco tempo, e corro o sério risco de retomá-la.
Em relação a minha vida social, preciso me aproximar mais dos familiares. Não de todos, obviamente, até porque não faço questão alguma de conviver com certas pessoas. Alias, já evolui bastante neste quesito, porém ainda preciso estar mais presente. Já com os amigos, está tudo certo, tudo como eu gosto e acho que deve ser. Só gostaria que eles respeitassem mais os meus “nãos” quando me nego a vida noturna. Definitivamente não gosto da vida noturna... não sei o porquê, mas sinto que isto de boates, baladas na madrugada, etc. é coisa de gente triste.
De tudo, o mais difícil será parar de fumar, mas sob a ótica da minha jornada maior, vale muito a pena realizar este sacrifício.
No mais, é só colocar a mão na massa e dar vazão. Deixar vazar, não prender nada. Nada calcificar. Vida boa é vida líquida, escorrendo. Vida é sentimento derretido. Sentimento endurecido é tumor. Ser humano de verdade é pessoa derretida. Pessoa endurecida é tumor. Eu quero tudo que se movimente em mim, eu quero tudo que me escorra, que tome meu corpo, que tome minha alma, para que só depois a tal consciência entre em cena, apenas para me lembrar que há vida em mim.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tem dias que – como hoje - eu não vejo a hora que acabe para amanhã ser um novo dia... tem dias que eu não me basto... tem dias que eu não caibo dentro de mim! Nestes dias eu peço a Deus que me salve de mim mesma, que me salve da autocobrança (exacerbada) pelas tentativas falidas, que me salve dos insistentes erros. E Deus tem me salvado. Mas eu tenho muito a fazer por mim mesma, tenho que desenvolver virtudes que me ajudem a aproveitar os acontecimentos que virão – os bons e os ruins – para que eu não me torne tão insensível por conta do pesar. A invulnerabilidade tem isto de nos tornar inatingível. Não quero ser vulnerável, mas também não quero deixar de sentir.

Estou meio anestesiada... qualquer espécie de sentimento já não me toca como antes. Ultimamente o verbo que eu tenho mais conjugado é FAZER – FAZER - FAZER. Tenho colocado o fazer acima de tudo e de todos os sentimentos. Tenho lidado bem com qualquer situação que me atinja no peito (a vida tem destas de pular com os dois pés no meu peito de vez em quando - e eu tenho destas de nunca cair), e o problema é que o excesso de força tem me tornado uma pessoa esnobe, e eu tenho me supervalorizado em relação a muitas coisas, a ponto de não aceitar as lágrimas de ninguém como argumento.

Não sei se é bom o fato de eu nunca me desmanchar, de sempre dar conta do que eu sinto, sempre estar pronta para receber o não, para receber o absurdo, as carências todas, enfim. Tenho feito tantas coisas que resta pouco tempo para sentir, e eu quero sentir tudo. Sentir é um verbo que se conjuga pra dentro, diferente de fazer, que é conjugado pra fora. Sentir alimenta, ensina, aquieta. Fazer é muito barulhento. Por isto sentir mais será uma das minhas metas para 2011, quero que venham todas as paixões, todos os medos, todos os êxtases, toda paz, tudo... Acho que foi Vinícius quem disse: “não quero ser feliz, eu quero viver”. E eu quero isto também.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

E eu que achei que havia superado...

“Você se irrita com a burrice alheia?”.
Tudo partiu desta pergunta, que fiz a um amigo. Não sei de onde surgiu a pergunta, nem se foi feita exatamente desta maneira. Lembro apenas que a resposta foi bem relativizada, mas convincente. Ele disse que se a pessoa se esforça, tenta compreender algo, enfim, ele não se irrita. Mas se a pessoa é cabeça dura, aí sim é complicado. E por falar em complicado, vale ressalvar que nos dias de hoje virou vício as pessoas utilizarem esta palavra quando não sabem o que dizer. Mas faz sentido. Aliás, a simplicidade é um estado que pertence apenas às crianças (pequenas e bem criadas, hoje nem isso podemos generalizar) e aos sábios (espécie rara). No começo e no fim do novelo, o fio é solto e linear. No meio é uma “complicação” só.
Bom... feita a ressalva, é importante dizer que concordei com a resposta dele. Agi como se pensasse igual. Na verdade penso igual. O difícil é sentir igual. Se bem que, em relação a burrice alheia, eu já tinha melhorado bastante (até em sentimento). De uns tempos pra cá tenho me gabado por ter evoluído em relação a compreensão do outro, o livramento de preconceitos, a flexibilidade diante do diferente, e diante do absurdo, principalmente. E quando falo que me gabo não é exagero, muitas vezes chego até a ser soberba. Mas... como sempre disse minha amada vózinha: “a gente paga a língua”.
Pois é, esta semana perdi a linha com uma destas pessoas insuportavelmente burras. Um tal cidadão que eu não agüento mais nem ouvir a voz e que trabalha comigo. Ele é gente boa e tudo, é gentil, educado. O problema é que é beeeeeeeem burro.
Deus que me perdoe!
Eu não sou a inteligência em pessoa, ao contrário, às vezes até descambo com meus extremismos. Mas tem gente que abusa. Não estou nem falando dos acometidos por crises de burrice súbita, como Aldo Rebelo e os 13 congressistas que aprovaram o novo código florestal e de repente palavras como biodiversidade, manancial, vida futura, não significavam mais nada pra eles. Também não estou falando de pessoas como a Marina Silva que, embora historiadora, fica parecendo uma louca quando discursa como se fosse uma porta voz de um Deus antigo, que para se comunicar com os fiéis utiliza a figura dela, e com isto declara-se publicamente contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo, usando argumentos baseados nessa mitologia... Eu até admito este tipo de burrice... desde que fique longe de mim...
O problema é quando o portador de burrice crônica senta do lado da minha mesa de trabalho. Antes eu achava que burrice contaminava. Hoje não. Agora acho que a burrice é uma doença progressiva, incurável e fatal. Como a dependência química, sabe... Ah, e é cega também! Porque a inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem esta peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela falta dela. Aquele que nunca entendeu grande coisa se acha perfeitamente normal quando entende menos ainda... quando eu tiver inteligência suficiente vou desenvolver uma teoria sobre isto.
Mas voltando ao cidadão obstruído pela inépcia absoluta... O pior é que ele enche o peito e me fala: “temos que ser práticos”! Ele fala cheio de razão, é incrível! Fala como se a inteligência prática subsistisse incólume ao emburrecimento geral, como se inteligência fosse um adorno a ser acrescentado ao sucesso depois de resolvidos todos os problemas. De fato, a prova mais evidente da burrice torpe é o sujeito nem se dar conta dela.
O tal cidadão me irrita não só porque empaca meus afazeres de trabalho, mas porque rouba meu precioso tempo na insistência de trocar comigo conversas que não evolui filosoficamente, baseadas em um roteiro maniqueísta e machista (acho que ele cresceu com um bando de mulheres idiotizadas). E pra fechar com chave de ouro, ele se faz de bonzinho e sensatinho, como muitos com pinta de herói que luta pelo bem-estar, pela liberdade das mocinhas aprisionadas… Aff, odeio estes machos que se engalfinham pra provocar gratidão, admiração e tesão nas fêmeas.
Concordo com Nietzsche que somos felizes apenas na ignorância. E tenho uma boa notícia aos que torcem pela minha felicidade: ano que vem vou tentar ser uma pessoa normal. Eu gostaria muito de ser feliz por pintar meu cabelo de loiro, colocar silicone e botox , fazer dieta, não ter celulite ou rugas, e malhar assistindo Sex and the city, reality shows, Ana Maria Braga, Pânico ou novela de TV... Pois é gente, mas ano que vem vou tentar chegar perto disto, é uma das minhas metas ser uma mulher elegante (preciso apenas aprender como que faz isto), uma cidadã comprometida com o bem geral da nação, uma pessoa que ganha dinheiro, etc, etc, etc...
... NÃO APLAUDAM AINDA....
Porque antes de tudo isto eu preciso de um doutor que ainda pratique a lobotomia... sofro demais por ser eu. Perdi o senso do que é ser mulher. Que roupa usar? Qual o tamanho (e o modelo) certo da bolsa que tenho que usar para ir à praia, e qual devo usar para ir ao MC’Donalds? Pois é, sou burra pra estas coisas, não sei nem ser mulher e fico criticando o idiota que senta do meu lado. Mas é que infelicidade pra mim não é não conseguir escolher qual bolsa usar, mas não ter condições de concluir as incoerências da vida…
Então vamos a uma conclusão coerente: agradeço aos ignorantes por me levarem a um estado de sucessivas perguntas; e aos inteligentes, por atiçarem em mim problemas em relação aos quais minha própria curiosidade vacila.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mudei de assunto na vida, todos sabem. Infeliz ironia: terei que mudar de assunto na minha pesquisa de mestrado também...
Me preparo há uns quatro anos para entrar no mestrado, é um preparo que envolve mais meu amadurecimento pessoal do que técnico. A dificuldade técnica, em si, já não é problema, passei até na prova de inglês, que eu achava o mais difícil. A entrada na USP também já não é problema, tenho uma orientadora que foi com a minha cara, enfim, tudo parecia perfeito... Mas, como nada foi fácil pra mim, não seria diferente agora. Aconteceu que a abençoada orientadora que me acolheu (com carinho, inclusive), disse sem o menor senso de compaixão: “olha, entendo sua posição teórica, mas eu não conheço Carl Rogers, preciso que você se fundamente em Winnicott. Você precisa entender que não é você quem escolhe a pesquisa, ela é quem te escolhe!!!!!!!!!!!”.
O número de exclamações não traduz minha indignação. Pra quem lê isto pode parecer problema pequeno, mas não é. E isto tem a ver com o tal amadurecimento que eu busco alcançar para entrar no mestrado. Por algum momento eu pensei que eu poderia falar sobre a educação, sobre minha paixão por Carl Rogers, sobre a temática da autonomia e da autogestão que tanto me excita e estimula. Mas eu terei que abrir mão... e isto não é tarefa fácil, principalmente porque terei que me fundamentar em Winnicott. Sabe o que isto significa? P-S-I-C-A-N-Á-L-I-S-E.
E eu me desagrado inteiramente da psicanálise: meu santo não bate, não encaixa no meu corpo, não consigo nem abstrair. Eu poderia me fundamentar em qualquer outro teórico: Jung, Perls (Gestalt), Merleau-Ponty (Existencialismo), enfim, mas psicanálise é de matar.
Este episódio me fez inclusive lembrar que Freud não gostava de música. Pense: uma Arteterapeuta (que anseia pela educação democrática, de perspectiva humanista) defendendo as idéias de Freud, e ele nem de música gostava! Acho que se ele gostasse, iria preferir o caminho da música clássica, onde há pautas e regras escritas, e onde aquele que ‘desafina’ deve aprender a ‘tocar direito’, ele jamais iria se render aos encantos do Jazz, que como eu, prefere criar sempre um acompanhamento apropriado para a melodia tocada - pelo paciente ou pelo aluno, em vez de seguir o racionalismo cheio de formulações que Freud impõe com seu discurso.
Quem lê este desabafo dramático pode até pensar que o absurdo está mais em mim, do que na psicanálise. Eu até concordo, estou percebendo que em meio ao meu romantismo humanista, estou “hipostatizando” a psicanálise. Só pra constar, hipóstase é uma noção filosófica que significa originariamente “substância”, mas que com a evolução do pensamento humano ganhou a conotação de uma abstração considerada como real, uma ficção. Minha idéia da psicanálise é muito difusa, é uma hipóstase. Um conceito em torno do qual se tem respeito, mas que é e que permanece como uma relíquia incapaz de ser aplicado ou de adaptar-se à realidade.
Pois bem, em meio a esta turbulência toda, lembrei-me das palavras de um ser iluminado que conheci. Neste domingo ele me colocou deitada em seu abraço e disse: “FOCO NO RESULTADO E NÃO NO PROBLEMA”.
Aí peguei três horas da noite de ontem, coloquei debaixo do braço e fui ao encontro de Winnicott.
O primeiro ponto que gostaria de mencionar é que Winnicott coloca como central a noção do falso self. Antes de entender, meus questionamentos foram todos de extrema crítica: “se um indivíduo não é ele mesmo, quem será ele? Ele não sabe que ele não é ele mesmo, de que modo devemos tratá-lo, estudá-lo, entendê-lo? De que vale, afinal, uma filosofia, uma sociologia, e mesmo uma psicologia que estudam falsos seres humanos?”. Depois de me indignar, contar até cinqüenta, pedir a ajuda de Deus, eu parti para a compreensão: a maneira como ele expõe o tema dá a entender (o que eu concordo) que a maioria esmagadora das pessoas é capaz de uma crueldade insana sempre que se encontra em situações onde alguém mais ‘assume’ a responsabilidade pelas consequências. Winnicott vai contra a idéia de que a natureza humana é ruim, mas diz que o Ser Humano, em sua maioria, NÃO é um ser moralmente responsável (pensei nos nazistas feitos prisioneiros após o fim da guerra, que justificavam seu comportamento monstruoso alegando que estavam ‘apenas obedecendo ordens’), mas desenvolve um falso self quando se deixam levar por outras pessoas. Winnicott diz que o self é saudável e tende a evolução, se for desenvolvido em situações adequadas, e o papel do educador e do psicólogo é justamente facilitar esta condição.
Nisto achei um ponto de convergência entre Winnicott e Rogers. O primeiro, brigou ao longo da vida contra a submissão e Rogers a favor da autonomia. Dá na mesma? Talvez sim, mas ainda tenho uma cisma contra a psicanálise (talvez seja preconceito), preferia então Machado de Assis que escreveu vastamente sobre esse mesmo fenômeno (talvez eu o inclua nos meus próximos projetos rs).
Outro ponto de convergência entre Winnicott, Rogers e eu (santa pretensão) é a crença de que o ser humano vem ao mundo e começa a inventar. Ele nasce assim: recria esse mundo que nós todos conhecemos. Só muito tempo depois (‘muito’ na perspectiva do bebê, claro) ele começa a aprender. Quando isso acontece desse modo, teremos um adulto saudável, generoso, forte, capaz de compaixão e respeito pelo outro. Quando os que cuidam dele acham que deveria ser ao contrário, primeiro ele tem que aprender, e depois poderá inventar o quiser, ele perde a capacidade de inventar, porque se torna um escravo. Sei que é utopia, mas eu queria enquanto educadora libertar escravos. Transformar escravos em seres humanos livres – autônomos, como dizem os educadores mais esclarecidos. E como é difícil: os nossos escravos dão a impressão de que não gostam de ser libertados. Mas não é verdade: eles têm é medo, medo de tentar e não dar certo, medo de serem castigados por seus ‘amos’ (que não precisam mais ‘mandar’ – eles, os escravos, já sabem muito bem obedecer sozinhos).
Aproveitando a oportunidade, vale incluir neste desabafo, minhas idéias contrárias aos modos de criar filhos (pelos pais) e educá-los (pelas escolas) que temos hoje. O fato é que o sujeito da aprendizagem não pode ser criado, porque se for criado não é mais sujeito. O sujeito da aprendizagem só pode nascer sozinho. É possível atrapalhá-lo. É possível reprimi-lo. É possível impedir que ele se desenvolva. É possível obrigá-lo a ser outra pessoa que não aquela que seria naturalmente. Mas não é possível criá-lo. Só é possível permitir que ele cresça, partindo da premissa de que esse ‘crescer’ é um dom natural, mais ou menos como as plantas: uma semente cresce e vira árvore, e a árvore cria galhos e folhas e dá flores e frutos. Nós podemos regar a terra e adubar de vez em quando. Mas não podemos fazer a planta crescer. Não podemos fazer esse processo acontecer. Nem precisamos – ele acontece sozinho. Claro, podemos descobrir as melhores condições externas para que um dado tipo de árvore dê o máximo de frutos possível. Mas não podemos forçar a árvore a produzir mais. Felizmente para as árvores, elas são imunes ao desejo humano. Se lhes damos as melhores condições, saem os melhores frutos e na quantidade máxima. Mas quem faz isso acontecer é a árvore, não nós. O mesmo se dá com a educação, eu acredito, e é isto que quero com a minha pesquisa.
É isso que quero e é tão difícil porque confiança e auto-estima não se pode dar a ninguém: é preciso criar as condições para que elas surjam. E aqueles encarregados de educar outros seres humanos não podem mais permanecer sentados sobre o saber que acumularam, não podem trabalhar em cima da idéia de que a educação escolar deve transmitir conhecimento, aconselhar, atarefar. Acho um absurdo (cruel muitas vezes) isto de a escola, a família, os amigos, enfim, as pessoas insistirem em querer mudar o outro, controlar, transformar o outro em algo conveniente a si. Seria um sonho se as pessoas pudessem admirar o outro como se admira um pôr-do-sol, simplesmente deixar o outro “ser”. Talvez possamos apreciar um pôr-do-sol justamente pelo fato de não o podermos controlar. Quando olho para um pôr-do-sol, não me ponho a dizer: “Diminua um pouco o tom do laranja no canto direito, ponha um pouco mais de vermelho púrpura na base e use um pouco mais de rosa naquela nuvem”. Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do-sol. Olho com admiração a sua evolução. Gosto mais de mim quando consigo contemplar assim qualquer pessoa...
E nesta minha viagem, Winnicott ficou para trás. Tudo bem, depois retomo, este texto já se estendeu demais, há tempos não escrevia um desabafo tão grande!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Não está sendo fácil trabalhar as metas expostas no texto anterior, mas graças à ação de Deus (que tem transformado minhas vontades) e, apesar de toda a dor e noites sem dormir, estou me saindo bem.
Na verdade, consegui equilibrar a parte prática da minha vida, mas minha alma está em pedaços ainda, mais do que ferida. Os resíduos de egoísmo, egocentrismo, as mentiras, ainda parecem estar presentes e eu tenho a sensação de uma marca da qual não conseguirei me recuperar.
Contudo, sinto-me muito abençoada por Deus. Ele conhece meu coração, é sensível às minhas necessidades e sempre me dá a força necessária para vencer (a mim mesma, principalmente) e ir além da imensa dor, e de todo o desrespeito, de toda falta de compreensão...
Ás vezes me sinto desconfortável perante Deus, pois Ele sempre atende as minhas orações, e eu pouco tenho feito para retribuir. Reconhecer isto não muda nada, eu sei. Eu preciso agir, preciso me empenhar no desenvolvimento de algumas virtudes atrofiadas por falta de uso, para que elas sirvam de algum modo às pessoas a minha volta.
Algumas qualidades negativas me perturbam tanto... preciso transformar minha falta de congruência, de genuinidade, e principalmente a falta de confiança na minha intuição, naquela voz interna que nos fala sutilmente e que, acreditem ou não, é dificílimo de ouvir, pelo menos pra mim... é como diz Alberto Caeiro: “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Se esta frase de Caeiro fosse parafraseada em referencia a minha questão, ela seria assim: “Não é bastante ter intuição e sabê-la, é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. É preciso paz, descanso, serenidade. É necessário aprender a ouvir e aprender com as dificuldades, pois elas nos dão a oportunidade de evoluir do nível humano comum, a um nível de maior amor e compaixão, maior consciência.
Hoje eu sei reconhecer que fui responsável pelas situações difíceis pela qual passei, pois escolhi confiar em indivíduos negativos, escolhi usar mal minha inteligência e permitir que descarregassem sobre mim amarguras, histórias, traumas e mau humor. Por tempo demais suportei tratamento indigno, humilhações, medo, grosserias e desamor, perdendo muito tempo e energia, na tentativa de conseguir um bom relacionamento com pessoas que querem viver em uma sintonia diferente da minha.
Iniciei uma nova etapa na minha vida em companhia de gente mais positiva, cheia de boas intenções, gente amiga, que se preocupa em ser saudável, alegre, próspera e iluminada. Quero compartilhar sentimentos nobres, aprender com os outros e ajudar, procurarei valorizar todas as conquistas que fiz e o amor que tenho em mim, evitando todas queixas desnecessárias, que me seguram nesta freqüência, de onde estou aos poucos saindo.
Sinto-me em paz com minha consciência e sei minha evolução provém de Deus. Escrevo este texto principalmente pra dizer à Deus que me comprometo a retribuir à Ele trabalhando para o bem do próximo, para sua alegria, seu bem-estar, atuando como agente catalizador de harmonia, entendimento, saúde, crescimento, entusiasmo, prosperidade e amor. Tudo farei sempre em harmonia e permissão de nosso Criador eterno e infinito que sinto como único poder real, atuante dentro e fora de mim.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010


Há um tempo em que é preciso abandonar
as roupas usadas, que já tem a forma do nosso
corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos
levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo
da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos
ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
(Fernando Pessoa).

A desorganização está acabando comigo. Na verdade não sei se é a desorganização, mas sei que algo está tirando minha paz. Já comentei com algumas pessoas. Tenho o sentimento constante de que tenho algo para fazer, ou de que preciso ir embora, simplesmente não consigo relaxar. Agora também dei pra ter insônia e acordar chorando.
Isto de abrir mão da pessoa amada - ou melhor, “desejada” - a troco de paz e de momentos melhores é algo que exige mais do que coragem. Implica uma mudança radical dos hábitos, dos projetos, das horas vagas, de tudo. É necessário ressignificar tudo, repensar... Mais do que se adaptar, é preciso se reformular.
Diante disto me vejo desequilibrada, desorganizada e perdida. Pensei que ao organizar minhas prioridades, meu foco, eu iria descansar um pouco (meu pensamento anda acelerado demais) e o mais importante: poderia investir minha energia em algo a ser edificado, e não à toa, em questões passadas e até mesmo encerradas que eu insisto em remoer.
Então elegi quatro questões gritantes que estão me perturbando, e coloquei o foco nelas como meta: (1) Acabar com as minhas dívidas até dezembro. (2) Investir na entrada ao mestrado. (3) Aproximar-me de algumas pessoas (alguns amigos, parentes e minha afilhada, principalmente). (4) Distanciar-me do Jeferson, já que no momento a amizade só está atrapalhando.
Mais tarde (poucas semanas depois) descobri que não estava tratando estas questões como meta, mas simplesmente como um desejo. E que, como eu disse, não se trata de organizar minha vida, é bem mais profundo: trata-se de uma autorreformulação (o que remete a estabelecer novas bases, além de uma mudança estrutural de hábitos – talvez não seja tão complexo).
Mas considerando que as quatro questões postas realmente precisam ser trabalhadas, escolhi investir minha energia no tratamento delas. Partindo do princípio de que para ter resultados diferentes é preciso fazer diferente, exponho como lidarei com cada uma destas questões:
1- DÍVIDAS - Ao mesmo tempo em que quero acabar com minhas dívidas, estou gastando ainda mais (com coisas que nem gastava antes, como baladas e afins). Além de gastar, as baladas me roubam o tempo que eu preciso para estudar, para me concentrar na segunda questão, que é investir na entrada do mestrado.
2- MESTRADO – estudar, estudar e estudar. Isto não será tão difícil, porque eu gosto e estou acostumada. A única coisa que atrapalha é a ansiedade, e o desespero de me enclausurar em casa pensando que lá fora o mundo acontece enquanto eu estudo. Mas de qualquer forma, até em razão das dívidas, o recolhimento é essencial.
3- APROXIMAÇÃO DAS PESSOAS – difícil é me afastar do convite do costumeiro. Até penso em diferentes possibilidades de lazer, de visitar velhos amigos, de me aproximar de algumas pessoas legais da minha família, mas eu não invisto nisto. Não sei o porquê. Claro que tudo isto também envolve dinheiro. Então esta questão vai ficar meio no “banhomaria”, a espera de oportunidades, não vou investir tanto nisto agora.
4- EX-MARIDO – nem preciso dizer que é o tópico mais difícil, que me rouba mais energia. Tem semanas que o sentimento ameniza, tem semanas que intensifica. Às vezes é saudade, outras vezes raiva, outras, desesperança, desânimo, luto... O sentimento nunca é de paz. Ao invés de me distanciar, sempre o procuro para novas interpretações dos fatos, para amizade, para sexo, para conversas que quase nunca me envolvem. Tenho como meta me afastar, o que não significa sumir. Por mais que seja desesperador pensar nele, sem tentar investigar se está tudo bem, sem tentar fazer com que ele assuma erros passados, ou perceba o quanto fui legal, boa amiga, boa amante, vou me esforçar. Primeiramente, comprometo-me a não mais ficar com ele. Pretendo me respeitar de verdade, o que é bem diferente de simplesmente dizer que eu me respeito.
Percebi que estas questões pairam sobre o desejo de transpô-las, mas esta transposição não se efetiva simplesmente por falta de atitude, por eu direcionar minha energia para o local errado. Sendo assim, vou experimentar seguir o exposto acima, vou concentrar minhas energias unicamente nisto: esquecer o que já passou e avançar para o que está a minha frente.